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O Copo Cheio, a Cadeira Vazia e a Imortalidade do Professor

Em uma sala reservada cercada de garrafas, Geddy Lee serve uma dose do lendário uísque escocês Macallan 25 para Alex Lifeson. “Dois dedos de largura” — essa é a medida exata. Em seguida, enche outro copo, que permanece intacto sobre a mesa, reluzindo sob a luz. O brinde não é para quem está presente, mas para Neil Peart, o homem que deu alma, poesia e uma pulsação matemática ao Rush por mais de quatro décadas.

É com essa cena intimista e dolorosamente bonita que se abre Neil Peart: No One’s Disciple, o novo documentário assinado por Sam Dunn e Scot McFadyen (a dupla por trás do definitivo Rush: Beyond the Lighted Stage). Mas não se engane: o filme passa longe de ser uma elegia fúnebre. É uma celebração eletrizante da vida de um filósofo das baquetas e do ser humano reservado, generoso e genial por trás do mito.

Impossibilitados de realizar um show tributo de grandes proporções logo após a partida de Peart, em 2020, Lee e Lifeson encontraram no cinema a resposta para homenagear o companheiro. Em vez de lamentar a ausência, trouxeram sua presença de volta ao estúdio reunindo uma verdadeira irmandade de bateristas que conviviam com o “Professor”.

O resultado são sessões de estúdio antológicas e comoventes:

  • Danny Carey (Tool) suando para acertar as viradas complexas de “Tom Sawyer” e os compassos quebrados de “2112: Overture”;

  • Stewart Copeland (The Police) injetando seu molho característico em “New World Man”;

  • Chad Smith (Red Hot Chili Peppers) entregando toda a energia crua e direta em “Working Man”;

  • Gavin Harrison (King Crimson) mergulhando nas camadas de “Dreamline”.

Ver esses gigantes do rock encarando a partitura com a humildade de aprendizes evidencia a dimensão técnica e criativa de Neil. Mas o trunfo do documentário está em humanizar o ícone. Entre piadas internas e memórias de viagens de moto, o filme resgata desde o garoto magricela e “estranho” que conquistou a banda ao destruir o kit de bateria na primeira audição, até o letrista compulsivo que devorava livros e transformou o rock progressivo em literatura.

No One’s Disciple estreou mundialmente no Festival Internacional de Cinema de Toronto e chega à TV canadense no dia 23 de setembro (a data de lançamento no Brasil e nas plataformas digitais ainda aguarda confirmação oficial).

No fim das contas, o longa não tenta preencher o espaço deixado por Peart — afinal, o insubstituível não se substitui. O que o filme faz é provar que a cadeira de Neil nunca estará realmente vazia. Enquanto houver alguém encarando um par de baquetas ou aumentando o som ao ouvir a introdução de “The Spirit of Radio”, a batida do Professor continuará ecoando eterna. Um brinde à altura de um verdadeiro rei do rock.

Confira o trailer abaixo: