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A Vingança do Piano: O Dia em que James Hetfield Chorou com a Própria Música

James Hetfield construiu uma das carreiras mais pesadas, agressivas e respeitadas da história do metal. Mas quem comanda os riffs de destruição em massa do Metallica também carrega uma alma vulnerável, e é justamente nas composições mais viscerais e confessionais que o vocalista revela sua face mais profunda. Em 2008, durante as sessões de Death Magnetic, uma faixa em particular mexeu com os briozinhos do frontman de um jeito único: “The Unforgiven III”.

A terceira parte da saga iniciada no cultuado Black Album (1991) não nasceu sob aplausos unânimes. Quando foi lançada, parte dos fãs torceu o nariz, rotulando a música de “fofa” ou “brega”, enquanto puristas debatiam os arranjos. Hetfield, no entanto, nunca se importou com o falatório. Em declaração resgatada pela Far Out, ele foi categórico: “Essa música é inacreditável. Ela me emociona toda vez que a escuto”.

O processo criativo ajuda a explicar essa paixão. Longe da cartilha tradicional do metal, Hetfield começou a parir a música ao piano, buscando uma atmosfera melancólica e trágica inspirada nas trilhas sonoras de Ennio Morricone. Com a entrada do produtor Rick Rubin, a ideia ganhou carne: uma orquestra completa foi convocada. “Acho que isso acrescentou uma dimensão enorme à música”, celebrou o músico.

Diferente de suas antecessoras, que fincaram bandeira no território acústico-pesado com os tradicionais solos de guitarra e trompas, a Parte III aposta suas fichas na fragilidade do piano e na densidade orquestral para dissecar temas caros a Hetfield: culpa, ressentimento e o peso — muitas vezes intransponível — do perdão.

A relação de amor com a faixa ganhou um capítulo à altura nos palcos durante o projeto S&M2, quando James subiu ao palco acompanhado apenas pela Orquestra Sinfônica de San Francisco. Sem a segurança de sua guitarra, desarmado e diante de milhares de pessoas, ele admitiu ter sentido frio na barriga pela primeira vez em décadas.

“The Unforgiven III” pode não figurar no topo das estatísticas de execução ao vivo, nem ser a escolha óbvia do fã de “Ride the Lightning”. Mas para o homem que escreveu a dor em forma de metal, ela continua sendo um santuário particular. Sempre que as primeiras notas de piano ecoam, o titã do thrash metal ainda se permite parar, escutar e se emocionar.