Irmãos, Inimigos e Imortais: Por Trás das Câmeras da Reunião do Oasis
Esqueça o verniz da nostalgia barata. Quando o Oasis anunciou o retorno aos palcos em 2025, o mundo do rock não suspirou apenas aliviado; ele entrou em erupção. Afinal, estamos falando de uma instituição sonora que, mesmo com as engrenagens enferrujadas por década e meia de ódio fraternal e silêncio sepulcral, nunca deixou de ser a última grande gangue barulhenta a dominar as paradas sem pedir licença a ninguém.
Agora, essa tempestade ganha as telas com Don’t Look Back in Anger, o novo documentário assinado por Will Lovelace e Dylan Southern — os mesmos caras que já tinham escancarado a alma do indie em Meet Me in the Bathroom —, com roteiro do afiado Steven Knight. E adianto: esqueça o formato padrão de “tributo chapa-branca”. O que o filme entrega é um soco no estômago de quem achava que os Gallaghers eram carta fora do baralho.
O Som da Tensão nos Ensaios
O grande mérito do documentário não está em revisitar o óbvio — todo mundo já sabe de cor a ascensão meteórica pós-1994 com Definitely Maybe e o colapso dramático nos bastidores de Paris em 2009. O ouro de tolo aqui é o acesso inédito e claustrofóbico aos bastidores dos ensaios da reunião.
Durante semanas de um laboratório de alta tensão criativa, o filme nos coloca dentro da sala de controle para ver Noel Gallagher comandar o maquinário com a precisão cirúrgica de um relojoeiro implacável, enquanto Liam desfila aquela pose de frontman intocável, rosnando cada sílaba com a mesma urgência punk de trinta anos atrás. Ver os dois no mesmo recinto é como assistir a dois leões dividindo a mesma carne: a energia elétrica é palpável, quase perigosa.
Da Argentina ao Anhembi: A Arquitetura do Caos Coletivo
Quando a turnê finalmente explode nas estradas, passando por Cardiff, Seul e sacudindo a América do Sul, a direção acerta em cheio ao costurar a histeria das arenas com depoimentos que evitam o melodrama corporativo. Há momentos impagáveis, como a primeira entrevista conjunta da dupla após o armistício — onde as farpas continuam cortando o ar —, e discursos onde Noel faz questão de cravar que o som do Oasis pertence à classe trabalhadora, e não a oportunistas de plantão.
Para nós, brasileiros, o filme tem sabor de casa. A passagem por São Paulo ganha contornos de missa profana quando Liam rasga a voz em “Live Forever”, dedicando o hino à memória do saudoso Gary “Mani” Mounfield, do Stone Roses. E para coroar a loucura futebolística que move a alma da banda, o documentário flagra o momento exato em que Liam comanda o estádio inteiro a dar as costas ao palco para executar o clássico Poznań — tudo isso sob o olhar atento de um totem de papelão em tamanho real do técnico Pep Guardiola, mascote improvável dessa viagem psicodélica.
A Fúria Continua Viva
Don’t Look Back in Anger não inventa a roda do cinema musical. Ele faz muito melhor: ele apenas liga o amplificador no talo, deixa a distorção comer solta e lembra a uma nova geração o que significa ver uma banda de rock com sangue nos olhos.
Quando as luzes se apagam, você não sai do cinema apenas nostálgico. Você sai pronto para chutar a porta e comprar uma guitarra.
