Bon Scott: o homem que transformou excessos, ironia e liberdade na alma do AC/DC
(Foto: Rob Verhorst / Redferns via Getty Images)
Alguns artistas deixam um legado. Outros se tornam parte da própria identidade de uma banda. Com Bon Scott, foi exatamente isso que aconteceu. Décadas após sua morte, seu nome continua sendo lembrado como a voz que deu personalidade ao AC/DC e ajudou a construir uma das trajetórias mais explosivas da história do rock.
Em 2026, Bon Scott completaria 80 anos. Embora tenha partido precocemente em 1980, aos 33 anos, sua presença permanece viva em clássicos que atravessam gerações e em uma atitude que nunca coube em rótulos.
Seu humor irreverente aparecia tanto nas entrevistas quanto nas letras. Quando perguntavam se ele era “AC ou DC”, em referência ao significado do nome da banda, a resposta vinha carregada da ironia que o acompanhou por toda a vida: “Nenhum dos dois. Eu sou o raio.” A frase sintetizava perfeitamente quem ele era: intenso, imprevisível e impossível de ignorar.
Nascido em 9 de julho de 1946, na pequena cidade de Kirriemuir, na Escócia, Ronald Belford Scott mudou-se ainda criança para Perth, na Austrália, onde cresceu longe da tranquilidade. A juventude foi marcada por rebeldia, conflitos e até uma passagem por um reformatório. Mas foi justamente nesse período que encontrou na música uma forma de transformar inquietação em expressão.
Antes de conquistar o mundo ao lado do AC/DC, Bon acumulou experiências em diferentes grupos. Passou pelo The Spektors, ganhou destaque nacional com o The Valentines e amadureceu artisticamente no Fraternity, banda que lhe permitiu desenvolver o vocal rouco e as letras carregadas de sarcasmo, histórias de amores desastrosos, noites intermináveis, bebidas e personagens que pareciam saídos dos bares que ele tanto frequentava.
O destino, porém, quase interrompeu sua caminhada antes do capítulo mais importante. Em 1974, um grave acidente de moto o deixou seriamente ferido. Durante a recuperação, aproximou-se dos irmãos Angus e Malcolm Young. No início, ajudava a banda como motorista, mas logo surgiu a oportunidade que mudaria sua vida.
Com a saída do vocalista Dave Evans, Bon assumiu o microfone praticamente sem cerimônia. Angus Young lembraria anos depois que o primeiro encontro musical foi tudo, menos convencional. Antes da estreia, passaram cerca de uma hora apenas conversando. Bon tomou alguns goles de bourbon, levantou-se e declarou que estava pronto. Bastou subir ao palco para provar que havia encontrado seu lugar.
Sua chegada redefiniu completamente o AC/DC. A banda ganhou uma identidade mais crua, divertida e provocadora. Bon Scott escrevia sobre sexo, bebida, fracassos amorosos e até doenças venéreas, mas fazia isso sem glamourizar os excessos. Havia sempre um toque de humor autodepreciativo, como se risse primeiro de si mesmo antes que qualquer outra pessoa pudesse fazê-lo.
Essa sinceridade conquistou os fãs. Bon não interpretava um personagem. Ele parecia viver exatamente aquilo que cantava. Era um frontman que misturava carisma, irreverência e vulnerabilidade em doses iguais, tornando cada apresentação imprevisível.
Seu último álbum com o AC/DC, Highway to Hell, lançado em 1979, levou a banda a um novo patamar internacional. O disco reuniu algumas das canções mais marcantes do grupo e abriu definitivamente as portas para o sucesso mundial.
Poucos meses depois, em fevereiro de 1980, Bon Scott morreu em Londres após uma noite de excessos. A notícia abalou a banda, que chegou a considerar o fim das atividades. Incentivados pela família do cantor, os integrantes decidiram continuar, entendendo que aquela seria a melhor forma de homenageá-lo.
O álbum seguinte, Back in Black, tornou-se um tributo silencioso ao homem que ajudou a moldar o espírito do AC/DC. Embora Brian Johnson tenha conduzido a banda a uma nova era de sucesso, a marca deixada por Bon Scott nunca desapareceu.
Mais de quatro décadas depois, sua voz continua ecoando como símbolo de autenticidade. Bon Scott não foi apenas o primeiro grande vocalista do AC/DC. Foi o artista que transformou irreverência em identidade, fez do humor uma assinatura e mostrou que o rock também pode rir de si mesmo sem perder a força.
O raio ao qual ele se referia nunca deixou de iluminar a história da música.