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Quando David Bowie quis ficar em segundo plano: a turnê em que o Nine Inch Nails roubou a cena

Em meados dos anos 1990, quando poucos artistas consagrados aceitariam dividir — ou até relativizar — o protagonismo no palco, David Bowie fez exatamente isso. O Camaleão do Rock surpreendeu o mundo ao excursionar ao lado do Nine Inch Nails, então uma das bandas mais pesadas, provocadoras e influentes da música industrial. Mais do que convidar o grupo para abrir seus shows, Bowie decidiu co-liderar a turnê, numa escolha que se tornaria emblemática de sua inquietação artística.

A parceria aconteceu durante a turnê do álbum Outside (1995), fase em que Bowie mergulhava em sons sombrios, narrativas fragmentadas e experimentações eletrônicas. Ao seu lado estava o Nine Inch Nails, liderado por Trent Reznor, vivendo o auge criativo após o impacto devastador de The Downward Spiral. Em vez de competir por atenção, Bowie reconheceu ali uma força criativa que dialogava diretamente com sua própria visão de futuro.

Nos palcos, o encontro era intenso. Em algumas noites, Bowie surgia após o ataque industrial do Nine Inch Nails; em outras, as fronteiras entre “show principal” e “abertura” simplesmente desapareciam. Os dois artistas chegaram a dividir performances, simbolizando um raro momento de troca genuína entre gerações — não como reverência ao passado, mas como aposta no que estava por vir.

A decisão de Bowie foi mais do que estratégica: foi um gesto artístico e político. Ao se alinhar com uma banda que representava o desconforto, o ruído e a agressividade sonora dos anos 1990, ele reafirmava sua recusa em se tornar uma peça de museu. Bowie não queria ser apenas celebrado — queria continuar provocando.

Décadas depois, essa turnê permanece como um dos capítulos mais ousados de sua carreira. Um lembrete de que, para David Bowie, inovar às vezes significava dar um passo para o lado — e deixar que o futuro ocupasse o centro do palco.